Especial Setembro Amarelo: Nós precisamos falar sobre depressão

O mês de setembro é utilizado, em um dos objetivos, para promover a prevenção ao suicídio. Intitulado como “Setembro Amarelo”, o período de 30 dias reúne ações e matérias como a que você está lendo agora, para que as pessoas possam obter informações mais precisas sobre as psicopatologias e também estender os serviços de orientações para aqueles que necessitam de ajuda.

Embora muitos atentem para abordar o assunto apenas neste mês, termos como depressão, suicídio e também sessões de terapia são considerados tabus na sociedade, trazendo como consequência a omissão de informações daqueles que portam a doença. Buscando ampliar o entendimento sobre o que a depressão pode causar, quais gatilhos devem ser evitados e também abordar a importância do indivíduo se consultar com um psicoterapeuta, o Portal A TARDE entrevistou a terapeuta cognitiva comportamental e em Dessensibilização e Reprocessamento de Memórias Traumáticas (EMDR), Débora Franco. Esta é a primeira de cinco matérias do especial do site, que será disponibilizado do dia 17 a 21 de setembro.

Segundo informações da Organização Pan-Americana da Saúde, atualizadas em março deste ano, é estimado que mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão e cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano. Esta é a terceira principal causa de morte entre pessoas que possuem idades entre 15 e 29 anos.

O programa Mental Health Gap Action Programme (mhGAP), da Organização Mundial de Saúde (OMS), tem como objetivo ajudar os países a ampliar os serviços prestados às pessoas que possuem algum transtorno mental, neurológico ou que fazem uso de substâncias. Esta iniciativa defende que ao utilizar os cuidados adequados, a assistência psicossocial e medicação podem permitir que dezenas de milhões de pessoas que possuem psicopatologias podem levar uma vida normal, mesmo quando possuem poucos recursos.

Como a depressão se instala

A depressão é um tipo de doença em que não há um sintoma específico para que o diagnóstico seja dado. Segundo Débora Franco, a psicopatologia sobre ser definida através de uma análise do comportamento verbal ou não-verbal. “Para chegarmos a um diagnóstico, existem alguns pontos que são analisados. São eles: perda de interesse, anedonia (ausência de prazer) em atividades que a pessoa antes possuía gratificação e humor deprimido. Além desses sintomas, para as Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5.ª edição (DSM-5), a pessoa precisa apresentar cinco indícios, que envolve redução de interesse em quase todas as atividades, perda ou ganho de peso, insônia ou hipersônia, sentimentos de desvalia ou culpa inapropriados, redução da concentração e ideação suicida”, explica.

Débora também comenta que as pessoas que geralmente buscam terapia sentem esses sintomas, mas não fazem associação e que é muito raro o paciente chegar com depressão leve.

A psicopatologia é pouco aprofundada pelos indivíduos e há quem não saiba que ela possui níveis, por exemplo. Você sabia disso?

“A depressão possui níveis, quanto mais baixo o nível for, mais rápida é a resposta à psicoterapia, que pode ser associada, ou não, à medicação”, conta a psicoterapeuta.

Uma depressão crônica, que é o que costuma chegar com maior frequência em sessão, com tratamento correto, associado a medicamentos com psiquiatra em terapia, pode obter a resposta terapêutica de remissão dos sintomas depressivos é de até dois anos. Se a pessoa for comprometida, através do uso de medicamentos atrelado com a terapia, em até dois anos ela conseguirá a remissão ou exclusão dos sintomas depressivos.

Cada profissional pode realizar os modelos que sejam destinados à sua especialização: “Como eu sou terapeuta cognitiva comportamental, levo o Modelo Cognitivo de Depressão de Aaron Beck. A teoria dele traz uma tríade cognitiva, que envolve distorção cognitiva ou erros de interpretação sobre eventos sobre si ou sobre os outros. A pessoa possui pensamentos inadequados a seu respeito, se considerando inapta, além de uma visão negativa do mundo, incluindo relações de trabalho ou atividades e uma visão negativa do futuro, possuindo desesperança. Este último é um sintoma comum da depressão”.

Esses são os critérios que o terapeuta cognitivo comportamental usa para avaliar se o indivíduo está deprimido ou não. Complementando a análise, são utilizados testes psicológicos que também permite avaliar se há depressão e o seu grau.

Como uma pessoa pode obter depressão?

Você já deve possuir um amigo ou familiar que possui a psicopatologia e se observar as histórias contadas por cada um, pode perceber que existem formas diversificadas de uma pessoa obter depressão.

“As razões podem levar o indivíduo a possuir depressão podem ser endógenas, ou exógenas. Podem ser situações situacionais. Pode haver um componente biológico, ou seja, pode haver uma predisposição, como também pode ser ontológico, estando da história de vida da pessoa”, analisa Débora.

Segundo a psicoterapeuta, a Psicologia acredita que ao longo dos primeiros anos de vida, crenças nucleares são formadas, que podem ser adaptativas ou desadaptativas, e podem levar o indivíduo a ter uma má interpretação sobre si na vida adulta. É difícil apontar uma causa única, porque a depressão pode vir de diversas variáveis e é multideterminada.

O que fazer para reduzir a depressão?

Vale lembrar, leitor, que todo paciente da psicoterapia deve seguir as orientações do profissional que está o atendendo e conhece quais os pontos que o levaram a participar das sessões. As pontuações apresentadas pela psicoterapeuta reúnem o que os profissionais desta área de saúde utilizam como base para orientar seus pacientes, o profissional escolhe formas de reduzir através das áreas comentadas a seguir.

As pessoas que possuem depressão normalmente têm o comportamento de isolamento social. E esse fator leva o fortalecimento da ideia de que o indivíduo não tem valor, porque a autoestima é um comportamento que temos a partir das nossas relações com o outro. “Normalmente solicitamos que a pessoa tenha uma prática regular de atividade física, porque ela libera endorfinas do bem-estar e permite trocas sociais”, comenta Débora.

A psicoterapeuta analisa que é importante alimentar mais de um âmbito da vida do paciente: “Uma alimentação equilibrada também é recomendada, porque pode estimular a mesma substância. Recomendamos a procura de um psiquiatra, nutricionista e endocrinologista, para descartarmos qualquer causa metabólica que possa interferir no humor. Não é que isso determine a depressão, mas quanto está com a psicopatologia, qualquer um desses fatores podem contribuir com o agravamento ou manutenção”.

Segundo Débora, com essas orientações é possível que paciente conseguirá obter o equilíbrio, a partir do momento em que os aspectos sociais, físicos, biológicos e psicológicos são tratados.

Livros, filmes e músicas, tudo é bem-vindo?

Como te falei anteriormente, cada profissional possui seu modelo de orientação ao paciente e por conhecer de forma mais aprofundada o que pode se tornar gatilho em sua situação específica, ele pode te orientar a vetar ou consumir algum tipo de entretenimento.

“Eu, particularmente, oriento meus pacientes a evitarem livros de autoajuda. As obras desta categoria envolvem um conceito de que basta o indivíduo se engajar que a vida muda. Mas não é bem assim. Existem variáveis que são controladas, e também as que não são controladas. Se o paciente lê os livros de autoajuda sem orientação do psicoterapeuta, ele pode chegar a conclusão de que não tem determinado sucesso – ou não alcança determinadas metas –, porque não possui capacidade, e isso prejudica a autoconfiança”.

Débora conta que orienta aos pacientes leituras específicas ao longo do processo de terapia, para evitar que alguns conceitos inapropriados venham de obras que não possuem cunho científico. Ela diz não possuir opiniões negativas contra filmes e livros, desde que esses tenham como objetivo restabelecer o bem-estar emocional. Para uma regulação devemos buscar situações que possam despertar emoções mais positivas.

A terapia é somente para quem possui psicopatologias?

Acredito que esse é um questionamento que já passou na mente de muitas pessoas, não é mesmo? Mas é importante afirmar para você que todas as pessoas podem iniciar uma sessão de terapia.

“Todas as pessoas que possuem o objetivo de si conhecer, podem procurar a psicoterapia. O objetivo das sessões é que o psicólogo se coloque como espelho para o paciente. O autoconhecimento é poder e as vezes precisamos de um observador externo que vai nos ajudar a sair de alguns ciclos de reprodução que se mantém ao longo da vida”, explica a psicoterapeuta.

A depressão também não é a única procura em clínicas psicológicas. “É muito comum ter pessoas que não possuem traços depressivos, mas possuem ansiedade. Todos os transtornos de ansiedade podem ser tratados em sessões de psicoterapia, que ajudam a compreender que gatilhos específicos disparam os comportamentos e quais as contingências que os fazem se manter”.

O psicólogo ajuda a entender quais os comportamentos devem ser desenvolvidos, ou deixarem de reproduzir, para sair da situação de ansiedade.

Psicólogo ou psicoterapeuta? Há diferença?

O que você precisa saber também, leitor, é que há psicólogos e psicoterapeutas. Não sabe a diferença? Tudo bem! Vou te explicar! Segundo Débora Franco, o psicólogo é formado em Psicologia, que possui inscrição no Conselho Regional de Psicologia Correspondente e habilitação para exercer a profissão. O profissional pode se especializar em psicologia escolar, organizacional, do trânsito, na área jurídica, em clínicas, em hospitais, com neuropsicologia, psicologia social comunitária e também psicopedagogia.

Já o psicoterapeuta não é obrigatoriamente formado em Psicologia. Ele pode possuir formação em outra área, não pode utilizar o título de psicólogo, nem se valer das funções que são exclusivas a esta área, como avaliações psicológicas. Mas ele pode fazer uma especialização em uma abordagem teórica e exercer como psicoterapeuta.

A diferença entre os dois tipos de profissionais é que os psicólogos estudam a fundo as psicopatologias, a formação é mais abrangente, podendo trabalhar com qualquer tipo de transtorno. Já o psicoterapeuta, possui uma orientação para trabalhar de acordo com uma linha teórica, sendo um terapeuta familiar, por exemplo. O psicólogo também pode fazer uma especialização e atuar como psicoterapeuta.

Sociedade atualizada, porém cheias de tabus

Ao ser questionada sobre o preconceito de pessoas que criticam as sessões de terapias, Débora afirma que há ainda o tabu, porém não de todos: “Ainda existem pessoas que dizem que a psicoterapia é ‘coisa para maluco’. Normalmente esses termos são utilizados por pessoas que possuem pouco acesso à informação. Vejo a psicoterapia é uma demonstração de amor-próprio e é vista como um exemplo de autoaperfeiçoamento”.

A psicoterapeuta afirma que os problemas pessoais devem ser tratados, mas cabe ao indivíduo definir o que é melhor. “Se a conversa com a família ou amigos não está dando resultado, porque sofrer? Sofrer sozinho, sem buscar ajuda é uma opção. Nós não precisamos demonstrar que somos autossuficientes. Ser adulto, aliás, é saber o momento de buscar ajuda, porque é um reconhecimento de que possuímos limitações, e as vezes com uma pessoa mais apta que já passou pela mesma experiência, ou com um psicólogo podemos desenvolver uma nova aprendizagem. O cérebro humano está sempre pronto para aprender, basta a gente se oportunizar para isso”.

Ações durante o Setembro Amarelo

Durante este mês o Elevador Lacerda, em Salvador, ficará iluminado com a cor amarela, o objetivo é manter a lembrança da causa e promover a campanha de prevenção ao suicídio.

Já nas redes sociais, o Twitter apresentou uma inciativa dentro da plataforma onde o usuário que buscar termos relacionados ao suicídio receberam em destaque a notificação com mensagem de apoio, o #ExisteAjuda também disponibiliza o contato do Centro de Valorização da Vida. A plataforma está disponível na Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Espanha, Hong Kong, Austrália, Estados Unidos, Japão e Coreia.

O Spotify criou uma playlist intitulada ‘188’, este é o número de atendimento para pessoas que estão pensando em cometer suicídio e precisam de ajuda. Ela é composta por 40 músicas e teve suas canções selecionadas por curadores da plataforma. O aplicativo está disponível para computadores, e celulares que possuem Android e iOS.

 

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*